São Caetano e Santo André sofrem com tabela que ajuda São Bernardo

19/01/11

Criei metodologia para quantificar até que ponto numa competição em turno único classificatório, como é o caso da Série A do Campeonato Paulista, é possível atribuir pesos diferenciados às equipes que lutam por uma das oito vagas. Tomei os três times da região como referências. Cheguei à conclusão que o São Bernardo leva grande vantagem sobre o Santo André e o São Caetano.

O que significa levar vantagem? Que em igualdades de condições técnicas, o chamado Tigre tem mais possibilidades de classificação que o Ramalhão e o Azulão.

Sei que haverá chiadeira, mas a abordagem é respaldada por critérios que me parecem inquestionáveis, exceto a carga de subjetividade própria de um esporte onde a bola não entra por acaso quando os competidores que buscam o título são comprovadamente mais fortes que os demais, mas que pode entrar por acaso sim se há semelhanças de forças.

Contrariando tudo o que fui na infância, de aversão à matemática, desde que me meti no jornalismo econômico passei a me encantar com números, processos, planejamentos, essas coisas. Fica a critério dos leitores levarem a sério ou não esse trabalho. Estou certo de que vale a pena ir até o final deste texto. A experimentação vale para qualquer equipe. Fixei-me do trio regional por razões óbvias.

1. Definição dos valores de risco

O primeiro ponto sobre o qual fiz girar elucubrações assentou-se em critérios que pudessem definir o grau de risco de cada jogo das equipes da região. Foi aí que defini algo que me pareceu simples: os grandes times paulistas representariam grau máximo de 10 pontos de risco, as médias equipes grau de sete pontos e as pequenas agremiações, grau de cinco pontos.

Quando percebi que leitores poderiam questionar a conceituação, porque não distinguiria jogos em casa e jogos fora de casa, tratei de completar a tarefa qualitativa: os grandes valem 10 pontos de risco em qualquer lugar, os médios valem sete pontos quando jogam em casa e cinco quando jogam fora e os pequenos cinco pontos quando jogam em casa e dois quando jogam fora.

Desta forma, tratei de definir os três agrupamentos, que passaram a ser os seguintes:

a) Grandes equipes — Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos.

b) Médias equipes — Bragantino, Ponte Preta, Portuguesa, Grêmio Prudente e Americana (ex-Guaratinguetá).

c) Pequenas equipes — Botafogo de Ribeirão Preto, Ituano, Mirassol, Mogi Mirim, Noroeste de Bauru, Paulista de Jundiaí, Linense e Oeste de Itápolis.

O que me moveu na direção de qualificar as equipes em três grupos não foi o ranking histórico, mas a atualidade.

Os grandes paulistas são os grandes paulistas, independente de qualquer critério. Além disso, todos estão na Série A do Campeonato Brasileiro.

As médias equipes disputam a Série B do Campeonato Brasileiro.

E as pequenas equipes estão fora do calendário mais importante da Confederação Brasileira de Futebol o que, em tese, reduz o potencial de fortalecimento técnico.

2. Divisionismo da competição

Como a fase classificatória do Campeonato Paulista não é disputa uniforme, iniciada que foi no último final de semana após o período de férias regulamentares dos profissionais do futebol, dividi os 19 jogos em três etapas interdependentes.

a) Fase de Estruturação — Envolve os sete primeiros jogos, quando as equipes vão se organizar com contratações anunciadas, dispensas efetivadas e condicionamento físico e tático em processo de maturação. Coincidentemente, esses sete jogos também serão disputados às quartas-quintas e sábados-domingos.

b) Fase de Consolidação — Trata-se de nova etapa de sete jogos entre os 19 na competição. Nessa fase, as equipes deverão estar assentadíssimas. Fatores físicos, técnicos e táticos já deverão ter sido avaliados e superados.

c) Fase Decisiva — São os cinco jogos finais, a reta de chegada, a corrida pelo ouro da classificação. Um momento que dispensa maiores considerações.

3. Graduação dos riscos

Aparentemente, apenas aparentemente, há equilíbrio entre as três equipes da região quando se somam os riscos de cada jogo. Sem contar os três clássicos regionais, todos com peso 10, o São Caetano totalizou 98 pontos de risco, contra 97 do Santo André e 96 do São Bernardo. A diferença é tão escassa que poderia sugerir igualdade. Mas vamos provar que não é bem assim.

Quando hierarquizei o peso que envolve grandes, médias e pequenas equipes em jogos dentro e fora de casa, a decisão não foi aleatória. Está fundamentada em estatísticas.

Em qualquer lugar do planeta bola a regra é que as equipes mandantes têm sempre mais possibilidades de vencer do que as visitantes. Os fatores são múltiplos, desde arbitragens caseiras à maior intimidade com o campo de jogo.

Chamar a força da torcida é dispensável. Principalmente os árbitros são sempre mais condescendentes com os times da casa. O mesmo lance no interior de uma área e de outra área geralmente tem interpretação diversa. A pressão da torcida sempre interfere.

Quando se tratam de confrontos contra grandes equipes, não há peso diferenciado de risco. Definir por risco 10 foi a melhor solução. O peso da camisa, o peso dos investimentos, o peso da arbitragem, o peso de tudo que influencia um resultado, são na maioria dos casos favoráveis ao time grande.

Já os times médios quando jogam em casa exercem risco de peso sete aos visitantes.

Os times pequenos pesam um pouco menos, cinco pontos de risco.

Fora de casa os times médios pesam tanto quanto os times pequenos que jogam em casa e os times pequenos pesam apenas dois pontos na escala de risco.

Não é a mesma coisa jogar em casa com o Corinthians, com a Ponte Preta e com o Noroeste de Bauru.

Também não é a mesma coisa jogar fora de casa contra o Palmeiras, contra a Portuguesa e contra o Ituano.

É por esses exemplos e tantos outros que estabelecemos valores de acordo com o porte de cada adversário.

4. Diferenças entre o trio regional

Fundamentadíssima a alquimia que rege essa metodologia, partimos para o confronto entre as três equipes do Grande ABC para chegar à conclusão que o São Bernardo está em lua-de-mel com a tabela da competição.

Para que essa verdade ganhe substância, é preciso que os leitores tenham a mesma interpretação deste jornalista: é melhor jogar mais jogos em casa contra equipes pequenas, de risco dois, do que enfrentar essas mesmas equipes fora de casa, de risco cinco. E é também muito melhor jogar fora de casa o máximo possível contra uma das quatro grandes equipes, porque o risco, em casa ou fora, será sempre de nível 10. E é melhor também jogar menos vezes em casa contra equipes médias do que jogar no campo adversário.

Não esqueçam que estamos tratando de uma competição em turno único. Não tem volta.

A combinação perfeita para quem quer ser beneficiado por uma tabela classificatória é jogar mais vezes com os grandes fora de casa, mais vezes com os médios fora de casa e mais vezes com os pequenos dentro de casa.

Adivinhem os leitores quem está dentro desse figurino?

Se respondeu São Bernardo, acertou na mosca.

Dos 17 jogos que fará na competição (sem contar os dois clássicos regionais), o São Bernardo atuará em casa apenas um contra time grande (Corinthians, dia 30), dois contra médias equipes e cinco contra pequenas equipes. Total de risco dentro de casa: 30 pontos.

O Santo André soma 43 pontos de risco dentro de casa porque enfrentará dois dos quatro grandes, três vezes contra cinco dos times médios e quatro vezes contra o bloco de oito times pequenos.

O São Caetano chegou a 46 pontos de risco dentro de casa porque enfrentará duas das quatro equipes grandes, quatro das cinco médias e apenas três das oito pequenas.

Conclusão: se souber aproveitar em casa as vantagens da tabela, o São Bernardo poderá construir classificação histórica à fase de mata-matas.

O outro lado da moeda é que, beneficiado com jogos em casa, o São Bernardo terá ossos duros de roer mais complexos fora de casa. Tanto que soma 66 pontos de risco, mais que o dobro dos jogos em casa. O Tigre vai enfrentar como visitante três dos quatro grandes, três dos cinco médios e três dos oito pequenos.

O Santo André soma 54 pontos de risco em jogos fora de casa na fase classificatória porque jogará duas vezes contra grandes, duas vezes contra médios e quatro vezes contra pequenos.

O São Caetano está na pior fora de casa, sem beneficiar-se dos jogos em casa, porque soma 52 pontos: dois jogos contra grandes, apenas um contra médios e cinco contra pequenos.

5. Gargalos entre as fases

Não bastasse a combinação de jogos em casa e fora de casa, o São Caetano poderá sofrer efeitos da Fase de Estruturação, a primeira das três microetapas da competição. Exatamente no período de sete jogos mais intensos da competição, quando a tabela o favorece, o São Caetano estará em arrumação, longe de uma obra acabada. Se não somar nos primeiros sete jogos o máximo possível de pontos, poderá dar com os burros nágua porque as fases seguintes serão terríveis. Na Fase de Consolidação jogará três vezes em casa e quatro fora. Dois jogos em casa são contra equipes grandes (São Paulo e Palmeiras) e uma média (Portuguesa). Os quatro jogos fora serão contra equipes pequenas. Chegar à Fase Decisiva sem fôlego classificatório e ainda tendo de enfrentar dois clássicos regionais, além do Corinthians, não seria nada confortável.

A Fase de Estruturação será mais pesada tanto para o São Bernardo como para o Santo André, que disputarão três jogos em casa e quatro fora. Dos três em casa, um será contra grande equipe: o São Bernardo contra o Corinthians e o Santo André contra o Santos. Na Fase de Consolidação o São Bernardo jogará quatro em casa e três fora. Das três partidas fora de casa, duas são contra Santos e Palmeiras. Já o Santo André, que também disputará quatro jogos em casa e três fora, terá Palmeiras e São Paulo também fora de casa. Como se observa, São Bernardo e Santo André terão Fase de Consolidação muito mais vantajosa que o São Caetano.

Na Fase Decisiva, os três clássicos regionais podem ejetar as equipes da região do bloco dos oito primeiros colocados, caso não acumulem pontos suficientes para reduzir a margem de risco. Além do clássico com São Bernardo e Santo André, o São Caetano enfrenta o Corinthians, entre os cinco jogos. O São Bernardo enfrenta a Portuguesa fora de casa e o Santo André em casa. Como se observa, vão ser suadíssimos os 15 pontos que cada equipe disputará na Fase Decisiva.

A confluência de jogos do Campeonato Paulista, Copa do Brasil e Taça Libertadores da América poderá facilitar a vida das equipes que têm calendário menos desgastante. Enfrentar Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos em condições de acavalamento de compromissos poderá fazer a diferença. Resta saber quem se beneficiará.

Ainda é cedo, mas São Bernardo dá sinais de que pode ser a sensação

17/01/11

Ainda é cedo para projeções sustentáveis, mas a abertura da Série A do Campeonato Paulista dá indicações de que o São Bernardo pode ser uma das surpresas metendo-se entre os oito primeiros colocados, com direito a disputar a fase de mata-matas. Já o reforçado São Caetano precisa entrar em campo, porque o time que perdeu em Itápolis foi o mesmo do ano passado, com desfalques. E o parcialmente renovado Santo André foi além da conta no empate em Bauru.

Ganhar do Grêmio Prudente com autoridade por 3 a 1 num Estádio Primeiro de Maio com 10 mil torcedores é tudo de bom que poderia esperar pelo São Bernardo na noite de sábado. Mas há perspectiva de resultados ainda melhores quando se observa que a tabela da competição é favorável à equipe do presidente Luiz Fernando Teixeira. Teriam sido a ordem e os locais dos jogos obras do acaso ou o São Bernardo está bem na fita de relacionamento com a Federação Paulista de Futebol?

Dos três jogos das equipes da região só não acompanhei o da vitória do São Bernardo, no mesmo horário de São Caetano e Oeste, em Itápolis. Optei pelo Azulão ao vivo e gravei o Tigre. Ainda não tive oportunidade de acompanhar os lances.

Pelos melhores momentos e pelos comentários, o São Bernardo fez do adversário gato e sapato.

Não é pouca coisa, lembrando que, mesmo com mudanças profundas, o Grêmio Prudente acaba de ser apeado da Série A do Campeonato Brasileiro. É uma equipe-empresa com experiência suficiente para não ser adversário qualquer.

Já o São Caetano ficou muito aquém do mínimo necessário. A derrota em Itápolis poderia ter sido menos comprometedora em números se o técnico Toninho Cecílio não ousasse tanto.

A substituição do zagueiro Marcelo Batatais por um jovem atacante, Túlio, converteu-se em hecatombe tática. O deslize ocorreu no segundo tempo, quando o jogo se equilibrara por conta principalmente de frenagem do Oeste. Dois ataques fulminantes, sempre explorando vácuo no interior da defesa, em bola cruzada e em contragolpe, liquidaram o jogo.

Toninho Cecílio é um treinador competente, trabalhador, mas não pode abusar da sorte. Aliás, como qualquer treinador. Num sistema defensivo profundamente modificado com a contusão de Arthur e a troca de Bruno Recife por Berg, além de alterações drásticas à frente da zaga, com volantes que não foram titulares na temporada passada, a retirada de Marcelo Batatais, veterano zagueiro bem entrosado com Anderson Marques, provocou um forrobodó tático.

Talvez seja mais recomendável ao jovem treinador que, principalmente em jogos fora de casa, um terceiro zagueiro se acrescente ao grupo defensivo. E que em casa, como nesta quarta-feira diante do Americana, recomponha sem sustos o interior da defesa com a dupla Batatais-Anderson. Entrosamento no futebol vale, em muitos casos, muito mais que possíveis trocas individuais aparentemente mais qualificadas.

O escorregão tático de Toninho Cecílio com a retirada de Batatais foi a fratura exposta de um São Caetano debilitado como conjunto. O azulão fez uma péssima partida. Sem os reforços contratados (exceto Berg) e excessivamente defensivo, lento e previsível, foi amplamente dominado por um adversário elétrico, mobilizador e agressivo. Perder do Oeste fora de casa não é desonra, porque a equipe do Interior se mantém na Série A do Paulista pela alta produtividade de pontos em Itápolis. O perfil da derrota é que deve ter balançado a estrutura emocional do São Caetano.

Como mostraremos amanhã, o São Caetano não tem tempo a perder para acumular pontos num campeonato cuja tabela de jogos não é igual para todos os times. Muito pelo contrário.

Isso quer dizer que a equipe não pode se dar ao luxo de deixar um meio de campo inteiro de reforços fora da disputa e muito menos experimentar soluções defensivas que podem ser danosas.

Já o Santo André deve festejar o ponto conquistado em Bauru porque esteve duas vezes inferiorizado no placar e precisava de um bom começo para debelar da memória o trauma do rebaixamento à Série C do Campeonato Brasileiro.

E o resultado foi o mais justo. Houve equilíbrio de forças na maior parte do tempo, além de revezamento de controle das ações. Foram 90 minutos intensamente disputados. O Santo André teve velocidade, boa marcação, saídas pelas laterais e, como no ano passado, apenas alguns apagões táticos, como os avanços do lateral-direito adversário com liberdade, até sofrer o primeiro gol.

Ainda há muito chão pela frente na Série A do Campeonato Paulista. O risco que todos corremos é entusiasmo ou aborrecimento demais com vitórias e derrotas das equipes da região e, a partir daí, erigir sentenças definitivas que podem ser demolidas nas rodadas seguintes.

Certo mesmo é que a tabela do campeonato é sopa no mel para o São Bernardo, enquanto que para São Caetano e Santo André é osso duro de roer.

Vou explicar essa constatação nesta terça-feira com o máximo possível de objetividade e uso de cálculos matemáticos, embora não seja possível evitar alta carga de subjetividade.

Afinal, por mais que a bola não entre por acaso, há carregamentos de imponderabilidades que não podem ser simplesmente esquecidos.

Esqueçam candidatura e últimas entrevistas de Miriam Belchior

8/01/11

Tem gente querendo forçar barra jornalística insustentável. Trata-se da suposta possibilidade de Miriam Belchior disputar a Prefeitura de Santo André em 2012. Esqueçam: a agora ministra do Planejamento do governo Dilma Rousseff é página virada no jogo eleitoral em Santo André. Como escrevi antes, Miriam Belchior jamais trocaria um ministério tão importante por uma disputa acirradíssima, de grande risco. Diferente de Luiz Marinho em 2008. São Bernardo é o maior símbolo petista do País. Era questão de honra do então presidente Lula da Silva receber a chave de São Bernardo pós-encerramento do mandato tendo o afilhado Marinho no comando do Paço Municipal.

Talvez Miriam Belchior não tenha nem tempo para fazer o que melhor sabe em período eleitoral: desvendar os caminhos e os atalhos de votos, especialista que é em decifrar classes sociais, econômicas e culturais de Santo André, base sobre a qual definem-se medidas de sensibilização do eleitorado.

Miriam Belchior seria concorrente de peso porque unificaria numa boa ou por ordem de Lula da Silva a casa da Mãe Joana do PT em Santo André. Mas agora que virou ministra, esqueçam. O prefeito Aidan Ravin, favoritíssimo à reeleição, agradece. Terá menos obstáculos. Mais que menos obstáculos, alguns obstáculos artificiais, de laboratório de ingênuos alquimistas.

Na entrevista que concedeu no final do ano, impressa ou postada por veículos de comunicação do Grande ABC, o que tivemos de Miriam Belchior foi uma sucessão de declarações óbvias tanto no campo da regionalidade como em âmbito nacional.

A ex-supersecretária de Celso Daniel joga numa retranca à italiana quando posicionou-se publicamente. As intervenções não têm qualquer semelhança com o estilo arrasador nos corredores do poder. Miriam Belchior é um trator que não perdoa os indolentes, chega junto nos reticentes e cobra incansavelmente dos competentes.

Para azar dos jornalistas que a entrevistaram (tudo indica que foi uma ação coletiva, não individual, embora os veículos não mencionassem as circunstâncias do trabalho) Miriam Belchior tornou-se prato insosso demais. Li avidamente cada parágrafo tanto do Diário do Grande ABC quanto do Repórter Diário, como o fiz uns 10 dias antes no ABCD Maior. Li, reli e nada, nadinha de interessante.

No caso do Diário do Grande ABC e do Repórter Diário, a entrevista é a mesma. Mudou-se apenas a abertura, personalizando-a. O Diário achou chifre na cabeça de cavalo de candidatura de Miriam Belchior à Prefeitura de Santo André, em latente conflito com resposta da ministra que quer seguir ministra. Nesse ponto, o Repórter Diário foi mais comedido e correto. O ABCD Maior publicou entrevista exclusiva uma semana antes.

Uma pena que nada de substantivo se colocou aos leitores. Acreditava poder extrair daquela ação jornalística muito mais que formalidades, sobretudo nas questões políticas, econômicas e sociais do Grande ABC. Miriam Belchior não passou de vôo panorâmico, sem as emoções que somente incursões rasantes proporcionam. Nem uma sacolejadazinha foi possível captar. Prevaleceu o politicamente correto. Nada é mais enfadonho que uma entrevista politicamente correta.

Por isso, diferencio entrevistas de entrevistas. Entrevistar por entrevistar não vale a pena. Pode até servir de marketing (”olha, entrevistamos a ministra”), mas não passa disso. Marketing sem valor factual.

Possivelmente, Miriam Belchior ergueu uma barreira ministerial que inibiu a ação jornalística. Havia à disposição nas prateleiras do supermercado de regionalidade uma agenda múltipla. Entretanto, o que se viu foi um armazém de secos e molhados de alguns pontos temáticos acanhados, como a sucessão municipal em Santo André e, por decisão da entrevistada, apenas uma abertura muito discreta da janela de oportunidades que supostamente o pré-sal proporcionaria à economia do Grande ABC. Nada com substância, nutriente condutor da materialidade da sugestão.

Estaria Miriam Belchior despreparada para avançar o sinal ou os interlocutores não teriam feito a condução da entrevista da forma mais condizente com os anseios regionais?

Mesmo quando faz menção — isso mesmo, menção — aos investimentos do governo Lula da Silva no Grande ABC ao longo dos oito anos, por volta, segundo a entrevistada, de R$ 10 bilhões, não há detalhamentos que permitam análise crítica. Não sei de onde saiu tanto dinheiro.

Pelo que entendi, os quase R$ 2 bilhões aplicados no Rodoanel e os não sei quantos milhões ou bilhões da Universidade Federal do Grande ABC estão nesse balaio de dados.

Tanto o Rodoanel quanto a UFABC devem ser minimizados como rubrica regional. A estrada tem inserção econômica bastante modesta no Grande ABC, embora seja relevante à mobilidade veicular. A universidade é o corolário do quanto um grupo de acadêmicos chega ao nosso território e dá de ombros à regionalidade ao introduzir goela abaixo modelo arbitrário de organização educacional.

Gostaria muito de entrevistar Miriam Belchior, mas é possível, como em outra situação, de confirmação seguida de silêncio, que a iniciativa não prospere. Com todo o respeito que me merece — e a tenho em alta conta desde os tempos de Celso Daniel — provavelmente a ministra não se sentirá à vontade. E este jornalista não se arriscaria a apanhar um avião (tenho horror a avião) sem a garantia de que voltaria leve e solto com o gravador enriquecido de informações.

Uma das perguntas básicas seria exatamente a seguinte: como a ministra observa o contrassenso de que, embora com um presidente egresso da região e um sem-número de assessores em diversas áreas do governo federal igualmente oriundos destas plagas, o Grande ABC não conseguiu engrenar medidas para potencializar-se além do empurrão automotivo na primeira década dos anos 2000, depois da catástrofe de Fernando Henrique Cardoso?

Seria por que os petistas em questão trataram mesmo de cuidar da própria carreira pública, por que a institucionalidade do Grande ABC é uma lástima ou por que quando se está em Brasília nada é mais interessante, de fato, do que estar em Brasília?

Quem estiver afinado com o somatório dessas três alternativas não se distanciaria da realidade.

Por que Mauá cresceu e São Caetano perdeu tanto em 2009?

11/08/10

Em situação de normalidade nenhuma administração municipal muda os rumos da economia de forma consistente no curto prazo. Tudo é um processo. Por isso, a liderança de Mauá no mapa de Valor Adicionado do ano passado não tem nenhuma relação com o primeiro ano da administração do petista Oswaldo Dias. Tampouco a perda mais acentuada de São Caetano no mesmo período sequer resvala na gestão do petebista José Auricchio Júnior.

Na maioria das situações de empinamentos e de rebaixamentos de geração de riqueza, os resultados envolvem consequências macroeconômicas, principalmente, ou algum fator sazonal a ser apurado.

No caso de São Caetano e Mauá, extremos de ganhos e perdas do Valor Adicionado no ano passado no Grande ABC, a interrogação que precisa ser eliminada provavelmente tenha resposta no desvio de parte da distribuição e do consequente faturamento de terminal de derivados de petróleo do território de José Auricchio Júnior em favor de Oswaldo Dias. (leia mais…)

Setor automotivo bate recorde mas perde geração de riqueza

11/08/10

Apesar de o ano passado ter registrado a maior produção automobilística da história nacional, com mais de 3,4 milhões de veículos emplacados, o Grande ABC reconhecidamente sobrerrodas desde os anos 1950 viu a fatia que lhe cabe no Valor Adicionado cair na proporção de uma Ribeirão Pires. Ou seja: o Grande ABC perdeu uma Ribeirão Pires em transformação industrial, enquanto o Estado de São Paulo registrava crescimento de 5,36%.

Como o resultado negativo não se confirmou em outras importantes geografias municipais, apesar da queda do PIB (Produto Interno Bruto) do País de 0,2%, o que temos é mais um inquestionável sinal de limitações do modelo produtivo que gerou a maior porção de classe média do País, depois da Capital paulista, nossa invejável e cinderelesca vizinha. (leia mais…)

Rotina regional entre deserdados sociais e incestos institucionais

23/07/10

Os números foram apresentados, para variar, em estado bruto, sem valor agregado. Li em vários veículos impressos e digitais manchetes mais ou menos nestes termos: “Centro Público coloca 2.923 trabalhadores no mercado”. Trata-se do balanço recém-concluído do CPETR (Centro Público de Emprego, Trabalho e Renda) de Santo André. Diz a matéria que o número é 32% superior aos 2.205 colocados no mesmo período do ano passado.

Vamos fazer as contas: somando-se os empregos confirmados no primeiro semestre do ano passado e no primeiro semestre deste ano, o CPETR garantiu carteira assinada ao final dos dois semestres a 5.128 profissionais. Notícia a ser festejada? Qual nada, porque o universo de cadastrados, acumulado nos 12 meses correspondentes aos dois primeiros semestres, chega a 163.551 candidatos. (leia mais…)

Grande Campinas ultrapassa o Grande ABC no PIB de consumo

8/07/10

Era questão de tempo, de tempo que se esgotou: a Grande Campinas de 19 municípios e população semelhante a dos sete municípios do Grande ABC ultrapassou a outrora invejável cidadela regional e se posiciona em quinto lugar no ranking nacional do PIB de consumo, melhor tradução para o chamado Índice de Potencial de Consumo desenvolvido e consagrado pela agora IPC Marketing, sucessora da Target.

Para o Grande ABC, que já foi terceiro colocado no País, o sexto lugar nada mais é do que nova prova provada de que os anos 1990, especificamente do governo Fernando Henrique Cardoso, foram como sempre alertei os mais destrutivos que uma região já vivenciou neste País. E quem imaginava que os efeitos daquele quadro se esgotariam no curto prazo desconsidera sequelas mesmo quando o tratamento dispensado alcança resultados satisfatórios. O que também não é o caso do Grande ABC, arrimo da cadeia automobilística cada vez mais tecnológica, cada vez menos dependente de mão-de-obra. (leia mais…)

Diário acerta contas com Marinho e alivia longa perseguição editorial

23/06/10

A mais escarniçada guerrilha editorial movida no Grande ABC nos últimos tempos cedeu lugar a algo que não pode ser chamado de omissão completa nem de aprovação total, mas está muito longe do jornalismo a serviço da comunidade, com tem de ser o bom jornalismo. O Diário do Grande ABC do empresário Ronan Maria Pinto bateu tanto em pedra dura até que furou a cidadela da administração petista de Luiz Marinho, em São Bernardo. A carga de perseguição editorial que durou mais de um ano e meio está aliviada. Tudo em nome da miraculosidade da conta publicitária da Prefeitura de São Bernardo, a mais rica e mais problemática da região. (leia mais…)

Adivinhe o que sobrou no Ramalhão e faltou ao Azulão

4/05/10

Desafio o leitor a encontrar o verbete mais apropriado para resumir o futebol que o Santo André exibiu ontem no Pacaembu e que o retirou do papel de simples coadjuvante da decisão contra o Santos, e o futebol que o São Caetano mostrou no dia anterior em Ribeirão Preto, quando perdeu de 1 a 0 o título do Interior para o Botafogo. Vamos, tente encontrar a palavra-chave. Vou expor algumas sugestões para despertar maior interesse e desafio ao leitor. Vamos lá, então? a) Determinação; b) Disciplina; c) Equilíbrio; d) Ousadia; e) Organização.

Acredito que seja dispensável qualquer outro verbete, porque os cinco apresentados, cujos territórios conceituais são complementares, tornam-se suficientes para chamar a atenção de quem viu os dois jogos. Decidiram? Escolheram?

Agora, minha resposta. Trata-se de uma pegadinha. Nenhuma das cinco alternativas nem mesmo o embricamento de valores subjetivos que as envolve resume melhor o que foram os dois jogos e o comportamento do Santo André e do São Caetano, do que algo que ajuda a fazer a diferença em tudo na vida, tanto no coletivo quanto no individual.

A resposta é a seguinte: (leia mais…)

Exclusivo: caímos para o quinto no ranking de Potencial de Consumo

30/04/10

Pela primeira vez desde que mede o tamanho do consumo dos brasileiros em respeitado trabalho de pesquisa e consultoria, a antiga Target Marketing e Pesquisas, agora IPC Marketing, constatou de fato e irrebativelmente o que cansei de prever com base na lógica de marcha-lenta de petroleiro que precisa desviar de obstáculo: o Grande ABC consolida queda no cenário nacional, deslocado ao quinto lugar, após troca intermitente do terceiro lugar com Belo Horizonte.

O Grande ABC não só foi superado nesta nova temporada por Belo Horizonte no estudo coordenado pelo diretor-executivo da IPC Marketing, Marcos Pazzini, como também foi ultrapassado por Brasília, que completa neste ano meio século de fundação. (leia mais…)