Um libelo à linguagem coloquial

27/06/11

Ainda sobre a história da cartilha do MEC, houve reações enfurecidas ao texto Nós Pode, mas Nós não Quer, publicado neste blogue. São reações compreensíveis, que fazem parte de um debate, em meu ver, saudável. Ainda há quem defenda a distribuição da cartilha nas escolas, e meu pai, o Rubens Bueno, é uma destas pessoas. Eis o bom texto que ele escreveu em resposta à provocação de um amigo. Foi a quatro mãos, em colaboração com a verdadeira eminência em termos da Língua Portuguesa na família, a minha mãe.

Há uma discussão política enganosa sobre o ensino da “linguagem culta” e da “linguagem popular”. Não é verdade que os estudiosos da língua estejam aprovando erros grosseiros de “gramática” e ortografia. Os alunos devem conhecer a linguagem culta, sob pena de fracassar na carreira universitária ou profissional. E em cada contexto até a gente “culta” usa uma linguagem diferente: não se conversa com uma criança com a linguagem de uma aula universitária.

Ocorre que muitas professoras(res) aprenderam que o importante é a chamada “gramática” - o que não existe: gramáticos são organizadores de usos e costumes. Há tantas gramáticas quanto gramáticos. Sem falar nas diferenças entre Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé-Príncipe, Timor Leste, Macau, Goa…  Esta tarefa tem sido valorizada pelo IEL - Instituto de Estudos de Linguística da UNICAMP.

Dou o exemplo de dois alunos escrevendo suas composições. O primeiro não fez um erro. Escreveu: “O bebê está na bacia. Sai da bacia bebê. Bebê, bacia, ba, be, bi, bo, bu”.  Tirou 10. 

O segundo escreveu:  “Dois coelio andanu na mata encontraro um leão preso numa almadilha. O coelio falou: leão nóis não vai sauvá você porque si nóis sauvá você, quando você tivé aqui emsima você vai cumê nóis”.

Foi reprovado.

Mas veja, todos os “erros” têm um fundamento na linguagem coloquial e na tentativa de hipercorreção. Se “família” leva li, porque “coelho” é com lh?  “Almadilha” é como se fala e se escreve entre pessoas querendo falar bonito. “Nóis”, “sauvá”, “tivé”, “cumê”… são erros com fundamento em nosso passado guarani, de S.P e Minas, seguindo a oralidade. Não são gozação mal intencionadas, como o texto artificial do Jornal do Brasil.

Quantas vezes em S. Paulo a gente usa o “l” dos gaúchos, “salvar”?

Quem nunca fala “nóis vamu”?  Quem não engole o “r” final?

A linguagem coloquial e popular obedece a certas regras, inclusive quando passam à escrita. Assim ocorre também com a gíria da marginalidade, o “lunfardo” argentino, o francês dos crochards… Todo o povo entende.

O texto deste segundo aluno é complexo, comunica integralmente o que a criança quis dizer, mostra inteligência. Emprega período composto por subordinação. “Nóis não vai sauvá você” - oração principal. “Si nóis sauvá você” - oração subordinada adverbial condicional. “Quando você tivé aqui emsima” - oração subordinada adverbial temporal. “Você vai cumê nóis” - oração subordinada adverbial causal.

A tarefa da professora, aqui, é ir ensinando e corrigindo passo a passo, buscando sempre qual é a fonte do “erro”, pois nossa língua é difícil.

Doutra forma, como considerar a grande obra de Guimarães Rosa, a exemplo de “Grande Sertão: Veredas”?  E os poemas de Ascêncio Ferreira, Nhô Bento, Patativa do Assaré, Pompílio Diniz…

Quem conhece um bom texto não pode achar as letras de Roberto Carlos obras de arte!

A propósito: as reações ao primeiro grande livro de Guimarães, Sagarana, foram da admiração à fúria completa. Até intelectuais do porte de um Décio Pignatari, em vez de criticar a exploração do coloquialismo do sertão mineiro na obra, disse (e continua dizendo) que ela é um horror, porque teria misturado Joyce com Kafka ou algo que o valesse.

Se eu reagisse da mesma forma que alguns reagiram ao meu texto, não teria de dizer: “então vamos cortar o ensino de Guimarães da escola!”?

O jornalismo, o lobo, os cordeiros

22/06/11

(Publicado no site Observatório da Imprensa

Vamos falar de uma fábula. De uma terrível história de ficção, daquelas em que a bruxa vence o camponês e a onça vence o macaco. Esta já é, infelizmente, uma história antiga, quase tão repisada quanto os contos de Esopo. E nada indica que terá um final feliz.

Antes, porém, pergunto: ainda vale observar o jornalismo brasileiro a partir das atitudes que a revista Veja tem tomado há pelo menos 15 anos? Sim, infelizmente. Revisitar os erros que a chamada grande mídia continua cometendo já é quase um clichê, mas nada resta, senão isto, aos adeptos do jornalismo que ainda sonham com reportagens realizadas dentro de padrões mínimos de ética e decência. Padrões que a Veja não segue mais.

Na edição da semana passada, a 24ª do 44º ano de vida da revista, ela continuava sua suposta investigação sobre os contratos do ex-ministro Antonio Palocci. Até aí, trata-se de uma demanda da sociedade saber e de um direito da empresa investigar. Há indícios, contudo, de que Veja não está investigando nada.

Ficção da pior qualidade

O último parágrafo da reportagem “O laranja-fantasma” é o único sobre o qual este signatário detém informações. Diz o texto:

“Os trambiques do fantasminha laranjão ocorreram especialmente no ABC paulista. Boa parte dos endereços falsos que ele apresenta é de Mauá, lugar que Gesmo conhece bem. Foi lá que, em 16 de abril de 1988, ele se filiou ao PT. O partido tem uma relação profunda com a cidade: além de ter sido uma das primeiras cuja prefeitura a legenda conquistou, ela foi palco de uma série de escândalos políticos e de corrupção protagonizados por petistas. No ano passado, o Ministério Público acusou a prefeitura do PT de ter participado de um esquema que desviou 615 milhões de reais dos cofres públicos. Foi também a partir de Mauá, em 2009, que o sigilo da filha do tucano e então presidenciável José Serra foi violado nas dependências da Receita Federal, por meio de procurações falsas fornecidas por um petista. O partido transformou Mauá num centro de malversações, malfeitos e maldades.”

Simples assim: o leitor desavisado – e muitos dos que se mantêm fiéis à revista o são – conclui que há uma grande, uma imensa maracutaia envolvendo o PT de Mauá. Ocorre que o texto, ou ao menos esse parágrafo, é uma peça de ficção. Da pior qualidade. La Fontaine, se tivesse ideia parecida, rasgaria o papel com a pena, resistiria à tentação de arremessá-lo no rio Sena – afinal, o fabulista era também um inspetor de águas – e depositá-lo-ia, não sem raiva, na lixeira ao seu lado.

Eu ou você podemos ser os próximos

Para começo de conversa, a prefeitura do PT de Mauá nunca, jamais, foi acusada de ter participado de nenhum esquema de desvio de R$ 615 milhões dos cofres públicos. Não é que Veja tenha transformado uma suspeita em constatação: essa história, nem mesmo a referida suspeita, basicamente nunca existiu. Em Mauá, ninguém nunca ouviu falar dela. No ABC também não. No estado de São Paulo, idem, exceto, talvez, num cada vez mais obscuro prédio situado na Marginal do Rio Pinheiros, um prédio alto o bastante para se trancafiarem mais de mil rapunzéis.

Então, por que Veja cometeu tal descalabro? Ninguém sabe, exceto os cardeais da revista. O PT de Mauá nunca foi informado de que alguém, em algum momento ou lugar, havia aventado a possibilidade de acusar a prefeitura ou o partido de desvio de R$ 615 milhões de verba pública. O PT só soube da acusação, na verdade, na sexta-feira, dia 10 de junho, quando a edição da revista chegou às bancas.

Foi a revista Época, na edição desta semana – sete dias, portanto, depois de Veja ter publicado a sua história da Mamãe Ganso –, quem deu um sinal de onde estaria o erro de sua concorrente. As investigações do Ministério Público, segundo Época, sugeririam desvio de R$ 615 milhões dos cofres de Campinas, não dando ensejo a nenhuma acusação contra o PT ou contra a prefeitura de Mauá.

Perplexidade. Indignação. Preocupação. Se uma calúnia tal pode ser publicada impunemente, então a conclusão terrível é de que a qualquer momento eu, ou você, caro leitor, cidadãos comuns, que trabalham e pagam seus impostos, podemos ser vítimas de uma ilação maliciosa por parte da revista Veja. Não haverá defesa. Nossa imagem vai para a lama inapelavelmente. Basta a revista decidir que eu ou você sejamos os próximos. Este signatário – que, viciado em justiça e em cidadania, enviou um texto para o Observatório da Imprensa criticando a revista – pode muito bem ser este próximo, mas que diabo!

Acusação forjada

Acossados por uma acusação de tamanho vulto, o PT de Mauá e a prefeitura procuraram a revista. Pediram, no mínimo, que a informação fosse corrigida. Foram recebidos com o dar de ombros que, quem tenha se visto em situação semelhante nos últimos anos, já conhece por parte de Veja. A última edição ignorou o erro, porquanto fosse gravíssimo, tal como já era esperado.

Veja poderia ter apurado melhor a matéria? Não. Para se apurar alguma coisa melhor, é necessário, antes, tê-la apurado pior. E a verdade é que Veja não apurou nada. Quando da apuração ou da redação da reportagem, nem os responsáveis pelo PT de Mauá, nem a prefeitura ou os respectivos assessores, receberam uma única ligação da revista, questionando as informações que publicaria ou a versão dos supostos acusados. Aparentemente, não foi necessário, para os sectários da redação, sequer fazer jornalismo. Sentaram-se em seus computadores e bolaram uma história da carochinha que desonraria os irmãos Grimm, com a qual o império Abril continua enchendo as burras com o dinheiro de assinantes e de compradores.

A acusação dos R$ 615 milhões é a mais grave e, claro, os acusados vão tentar – escrevo “tentar”, note bem – obter reparação na Justiça. As esperanças são pequenas, dado o vasto número de vítimas que a publicação faz há 15 anos – lembremos, há muito tempo, o caso do ex-deputado Ibsen Pinheiro, contra quem a revista forjou uma acusação, de acordo com a confissão do próprio jornalista responsável pela farsa. Lembremos, também, tudo o que veio depois, e não foi pouca coisa. Se houvesse punição possível, Veja não continuaria useira e vezeira no procedimento.

Cidadãos supostamente de Mauá

Mas o suposto desvio de verba pública não foi a única alucinação que a revista publicou com ares de verdade. Informou a Veja que a prefeitura de Mauá foi uma das primeiras que o PT conquistou. Os escrivinhadores, além de não serem dados a checar informações pelo telefone, parece que não conhecem nem mesmo o Google. Uma pesquisa de cinco minutos derrubaria por terra a declaração. A primeira eleição petista para o executivo mauaense data de 1997, 15 anos depois de o partido ter conquistado sua primeira prefeitura no Brasil – em Diadema, vizinha de Mauá. Nesse meio-tempo, o PT governou mais duas cidades na região do ABC: São Bernardo e Santo André, cujas prefeituras foram conquistadas em 1988. E, claro, a própria capital paulista, cidade-sede da Editora Abril, foi gerida pelo PT também em 1988. Seriam necessários mais 10 anos para que Mauá fosse governada pelo partido.

Por último, a covardia. Mauá é uma cidade pobre, com 420 mil habitantes, a maior parte dos quais lutando por inclusão social. Com o dinheiro que São Caetano – que tem menos de 200 mil habitantes – tem para cuidar de uma pessoa, Mauá precisa cuidar de quatro. O seu orçamento em 2010 foi de R$ 511 milhões, o que, se já torna difícil governar, torna impossível o desvio de R$ 615 milhões. A cidade corre atrás de infraestrutura e de assistência para suas famílias. Nessas condições, um dos problemas, claro, é o de investir na autoestima da população.

Mas assim fica difícil. Primeiro, houve aquela acusação da violação de dados na Receita Federal, sobre a qual nem a prefeitura e o PT local, nem a população, têm nada a ver. Depois, houve as suspeitas ligações do ministro Palocci com cidadãos supostamente de Mauá. Um deles fora filiado ao PT na década de 1980, e eis como a revista justifica sua fúria pseudo-jornalística.

Só que o sujeito em questão nunca militou de fato no partido. Nem mesmo é conhecido na cidade, diga-se. E por que seria? Se ele tem um apartamento de R$ 4 milhões em São Paulo e se é um multiempresário com ligações em todo o Brasil, que razões teria para fazer-se conhecer numa cidade pobre, na qual 70% dos imóveis ainda carecem de regularização? Seu sobrinho, igualmente envolvido no caso Palocci, este, sim, é um mauaense de escol. Só que não tem nada a ver com o PT. Pelo contrário: trabalhou na prefeitura em 2008, quando a cidade foi gerida pelo PV que, na cidade, é o principal adversário dos petistas. O indivíduo foi prontamente exonerado no ano seguinte, como sói acontecer com os cargos de confiança durante uma mudança de gestão.

Fábulas escritas pelo Lobo Mau

Em que pesem todas as evidências, Veja sentiu-se à vontade para tentar transformar uma fábula pouco edificante numa história real. E conclui: Mauá é um centro de malfeitos, malversações e maldades. Aí está a moral da história. Ela torna ainda mais difícil morar em Mauá. O mauaense médio, como os cordeiros das fábulas, é pobre, é honesto, corre atrás de uma vida melhor. E tenta amar uma cidade que parte da mídia trata indevidamente como se fosse um antro.

Compreende-se. Cordeiros, nas fábulas, servem mesmo é para o sacrifício. Mas quem conhece de fato a história, perguntaria: onde é que estão estes malfeitos, estas malversações, estas maldades? Em Mauá ou às margens do Rio Pinheiros?

Saudades de Esopo, de La Fontaine, dos Irmãos Grimm. Hoje em dia, ao que parece, as fábulas são escritas pelo Lobo Mau.

Nós pode, mas nós não quer

16/05/11

Quero dizer, em primeiro lugar, que não sou a favor e muito menos dou suporte para a tal cartilha do MEC que ensina que falar “nós pode” é uma coisa certa. Isto posto, acho que os argumentos dos que chamam a cartilha de criminosa, descontadas suas razões realmente razoáveis, são de um empirismo que não coaduna com a inteligência. Nem mesmo com a Academia, onde a inteligência, muitas vezes, falta.

Clóvis Rossi diz que as normas da gramática levaram séculos de estudo para chegarem aonde estão, com o objetivo de que as pessoas possam se comunicar sem ruídos. Não perguntou, o Rossi – que não é muito dado a checar informações –, se os autores do livro, ao defender o seu ponto de vista, resolveram isso de supetão. Não, não resolveram. As correntes linguísticas que defendem o “nós pode” existem há pelo menos 40 anos e estão incrustadas na mais respeitável faculdade de Linguística do país, a da Unicamp.

Quarenta anos é tempo suficiente para um estudo, qualquer um, ser incubado e ganhar a luz, mas desde pelo menos os anos 1980 os linguistas da Unicamp já eram aplaudidos – e causavam polêmica – pelo avanço de suas pesquisas. Você acha que o principal argumento deles é assim tão desprezível? Ei-lo: quem faz a língua não são os gramáticos, não são os estudiosos, mas sim o povo. E o povo fala “nós pode” há mais de um século. Os professores de Português ensinam que é errado, no que estão em sua função. Mas quem lhes deu essa prerrogativa arrogante de dizer como é que as pessoas podem falar?

Menos furioso, Carlos Alberto Sardenberg, no Estadão, diz que é claro que as pessoas podem falar “nós pode” – contanto que isso não lhes seja ensinado como certo. A crítica de Sardenberg aproxima-se da posição equilibrada de um grande gramático do porte de Evanildo Bechara, que diz que as pessoas são bilíngues em sua própria língua. Elas usam uma linguagem durante uma entrevista de emprego e outra durante uma conversa no boteco. Bechara, provavelmente o maior gramático vivo – foi o representante brasileiro nas discussões com outros países lusófonos para determinar a última reforma na Língua Portuguesa –, entende que o seu trabalho é de catalogar, regrar e pensar, mas nem ele pretende impor uma língua ao povo.

A discussão está perto de escancarar uma forte rivalidade que existe entre duas correntes de estudiosos: gramáticos e linguistas. Nem todos os gramáticos mantêm a postura conciliadora de Bechara. Acreditam que a língua deve ser mantida, na medida do possível, como um mecanismo rígido, rigoroso, imóvel, e que as mudanças forçadas pelo uso delas por parte do povo só podem ser aceitas após décadas e mais décadas de popularização. E que algumas dessas mudanças – a do “nós pode”, por exemplo – são, simplesmente, uma heresia, não importa há quanto tempo é praticada. A imprensa, claro, está do lado desse grupo.

Mas se o chamado erro de concordância é praticado há tanto tempo, à revelia de acadêmicos e intelectuais, de que vale ensinar que ele está certo, em detrimento da norma culta? O erro continuará na boca do povo e o povo vai continuar reinventando a língua cotidianamente. A escola, dizer como é que se pode ou não comportar-se – essa não é, mesmo, a sua função. A sua função é dizer como são as regras, não obrigar as pessoas a segui-las no mundo lá fora. Eis por que acho que a cartilha não devia ter sido aceita pelo MEC. Quanto aos estudiosos, eles são anacrônicos por definição – e quem deu uma olhada mais profunda na Academia ultimamente sabe que eles, os acadêmicos, estão também sofrendo de reacionarismo por opção. No que, aliás, a imprensa não fica nada a lhes dever.

A falácia do patrulhamento

19/04/11

O caso Jair Bolsonaro, o deputado que defende abertamente a violência contra homossexuais e que confundiu “negra” com “gay”, continua. Um dos blogs mais acessados da internet, o de Ricardo Noblat, defende o deputado, atacando o que chama de “esquerdas”, que diz fazerem um patrulhamento ideológico para censurar as vozes que delas discordam.

O texto de Noblat está aqui. Leia e tire suas conclusões. Ex-dirigente do Correio Brasiliense, o blogueiro agitou o mundo jornalístico ao fazer uma página blog semanal na edição impressa do Estadão. Hoje, está n’O Globo. É formador de opinião, seja lá o que isso signifique nos dias de hoje.

Para defender sua tese, Noblat traça um paralelo entre a entrevista de Bolsonaro e o ato falho que Lula, antes de ser presidente, havia cometido durante a gravação de um programa político em Pelotas. Diz o blogueiro que não se patrulhou Lula como, agora, patrulha-se Bolsonaro.

A tese, em si, é mentirosa. Lula não foi apenas patrulhado. A gravação de sua piada de mau-gosto chegou a ser usada, e muitas vezes, em programas políticos que buscavam desancá-lo. A única diferença é que não foram as esquerdas que o fizeram, mas a direita. Noblat comete um dos sofismas mais clássicos, aquele que parte de argumentos de antemão falaciosos.

Mas há outras coisas que o blogueiro não fala:

  1. Lula fez uma brincadeira, uma de muito mau-gosto. Depois, envergonhado, pediu desculpas. Bolsonaro tem orgulho do que disse. Na melhor das hipóteses, assumiu a confusão entre negros e gays, mas continua soprando sua homofobia aos ventos.
  2. Lula não sabia que estava sendo gravado. Se a boçalidade da brincadeira foi publicada, é porque o então candidato pecou por cautela de menos, já que as câmeras estavam lá. Jair Bolsonaro disse o que disse diretamente para as câmeras. Olho no olho.
  3. Na mídia, Bolsonaro nem de longe foi enxovalhado do que jeito que Lula seria. Os que defenderam o petista já chegavam às páginas do jornal com o carimbo de esquerdistas. Os que defendem o deputado do Rio arrogam-se a postura de defensores da imparcialidade.

Agora, o pior é a ênfase na palavra “patrulhamento”. Ninguém saberia defini-la. O que é patrulhamento? Não vejo como nada além de uma palavra que foi tornada moda por pessoas que se incomodam com críticas gerais. Outras palavras ou expressões também estão em moda:

Liberdade de expressão: as coisas que eu e meus amigos falamos.

Patrulhamento: as críticas que fazem sobre as coisas que eu e meus amigos falamos.

Fascismo: as coisas que são faladas pelas outras pessoas, exceto eu e meus amigos.

Liberdade de expressão²: quando eu e meus amigos criticamos as coisas que são faladas pelas outras pessoas.

É lícito a Noblat, como a qualquer pessoa, defender Bolsonaro. O que está faltando é o povo brasileiro se acostumar com duas coisas que são relativamente novas na nossa terra: a democracia e a internet. Na primeira, você pode falar à vontade, contanto que saiba que o que fala tem consequências além do seu controle. Na outra, você tem os canais para se expressar – e os seus adversários também. Evocar a lei ou dizer-se perseguido é só uma maneira de fazer biquinho para evitar a crítica – e o biquinho, nesse caso, é desculpa de quem tem saudade da ditadura.

Como Bolsonaro, por exemplo.  

Gays, negros, Bolsonaro

30/03/11

Um dos assuntos da semana foi a declaração do deputado federal carioca Jair Bolsonaro, em resposta a uma pergunta da apresentadora Preta Gil sobre se ele deixaria seu filho namorar uma negra. Disse o político: “Ô Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu”.

Entidades de defesa dos Direitos Humanos, associações dedicadas à consciência negra e a própria Preta Gil não retardaram a indignação. Quer dizer que agora ser negro é sinal de promiscuidade? Os advogados do deputado terão muito trabalho nos próximos anos. Já se fala em quebra de decoro e cassação – debate que, é fácil perceber, não vai dar em nada.

Quem acompanha a política já conhece Bolsonaro de outros carnavais. Defensor intransigente do militarismo, ele elege como seu grande herói o ex-presidente Emílio Médici, em cuja ditadura torturou-se à larga no Brasil. Não hesita em chamar de terroristas quaisquer figuras públicas que outrora tenham combatido a ditadura. É um deputado em campanha em prol do analfabetismo político. Seu discurso não esconde o perigo de suas ideias e muito menos a contradição de sua própria figura: um homem que defende a ditadura e o autoritarismo, mas que, curiosamente, depende da democracia não só para gozar da prestigiosa condição de deputado federal, mas também para poder dizer à vontade as bobagens que diz.

É muito fácil cair na tentação de usar a escorregada de Bolsonaro contra ele. Mas também está claro que o político cometeu um equívoco, um ato falho talvez. Instado a responder o que faria se seu filho namorasse uma negra, entendeu que a pergunta foi: “o que faria se o seu filho namorasse um gay?”. No dia seguinte, seu gabinete despachou o esclarecimento para os jornais: Bolsonaro não considera que a negritude seja sinal de promiscuidade. E, mesmo se trocarmos o “negra” pelo “gay” na pergunta, o deputado não considera que sua resposta seja homofóbica. A emenda não ajuda a absolvê-lo. Agora ele pode ser processado também pelos movimentos de defesa dos direitos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Transgêneros). Coisa, aliás, que já deve estar acontecendo há anos: os discursos do sujeito contra a homossexualidade não são de hoje.

Contudo, ninguém se apressou em analisar o papel do meio em que Bolsonaro respondeu a Preta Gil. A poucos está ocorrendo que o programa que organizou a entrevista – o CQC, da Rede Bandeirantes – talvez não tenha sido muito ético em seu procedimento. Quem conhece jornalismo sabe que ética não é exatamente a especialidade do programa. Seria uma obrigação dos produtores do CQC, pelo menos durante a edição da entrevista (que não foi ao vivo), ligar para o deputado ou para seus assessores e checar se ele entendia que o teor de sua resposta estava na prática referindo-se aos negros, e não aos gays. Maurício Stycer foi um dos poucos a ter levantado essa lebre.

Não gosto do Bolsonaro. Para usar de um discurso a que ele está acostumado: considero a existência do Bolsonaro ofensiva à minha condição de humano. Considero-o uma figura nefasta. Espero nunca estar perto dele. Espero que ele não se reeleja. Gostaria que ele não tivesse nascido. Espero que ele morra antes de mim. Quando morrer, não vou ficar triste.

Mas esperar que ele seja castigado da mesma maneira como ele espera que tanta gente seja punida é usar dos mesmos métodos e do mesmo raciocínio estúpido do deputado. Ademais, se ele foi eleito e reeleito, é porque seu pensamento representa o de uma parcela significativa da população, e não seríamos uma democracia se proibíssemos que essa parcela tivesse seus representantes. Felizmente Jair Bolsonaro, nos dias de hoje, não é uma regra, mas uma exceção.

E não gosto do CQC. Não acho nenhum de seus integrantes engraçados. Não acho o Marcelo Tas um bom jornalista nem um bom humorista. Não acho o programa ético. Isso, sim, é algo sobre o qual devia haver alguma espécie de castigo. Nenhuma entidade, porém, vai fazer campanha contra ele. Porque dizer “sim senhor” à mídia nos dias de hoje, é uma regra, não uma exceção.

Defender genocidas, cara-pálida?

22/02/11

Uma vez vi um intelectual constrangido criticar as esquerdas do mundo (que ele chamou de “a esquerda”, assim, no singular) por causa do posicionamento contra a invasão do Iraque – aquela que o George W. Bush capitaneou pateticamente, assim como tudo o que fazia. Disse o intelectual constrangido: “a esquerda está errando ao não apoiar a derrubada de Saddam Hussein. Se a esquerda não serve para derrubar tiranos, serve para quê?”

Foi uma meia-verdade servindo de argumento para outra meia-verdade. Não existe a esquerda. Existem as esquerdas, e elas são muito mais heterogêneas do que as direitas, que tendem a unir-se em torno de um número menor de consensos – a saber, dinheiro, território, hegemonia e a liberdade para dizer o que os outros têm de fazer (e ser atendido).

Ademais, as esquerdas não estavam, nem todas pelo menos, defendendo a manutenção de Saddam no poder, mas atacando a alegação sob a qual os EUA passaram por cima do Conselho de Segurança da ONU e invadiram o Iraque. Hoje, só um idiota diria que Saddam tinha armas de destruição em massa. Já os direitistas mais teimosos, quando confrontados com os fatos de que os contratos de reconstrução do Iraque estão nas mãos das empresas que apoiaram a invasão e, principalmente, de que o petróleo iraquiano está nas mãos do Bush et caterva (direitista adora essa expressão), fazem o que sabem fazer: mentem, atacam você, ofendem você.

Mas voltemos ao argumento do intelectual constrangido para pensar melhor nele: faz sentido defender tiranos como Saddam Hussein? As esquerdas costumam adorar homens que falam grosso com os EUA, e sobraram poucos deles no mundo: na Coreia do Norte, talvez em Cuba, e mais um punhadinho no Oriente Médio.

Ocorre que, grosso modo, defendê-los parece ser um pacto com o demônio contra outro demônio. Veja o que Gadaffi acaba de fazer na Líbia. As esquerdas estão dispostas a arcar com o ônus de defender um genocida? Eu sei que não estou; sei que, se é preciso combater alguém, eu começaria pelos genocidas. Quando um colega meu vem defender o Stálin, para começar, eu saio de perto e espero a conversa acabar.

É preciso ter um pouco de autocrítica para elaborar um projeto condizente com o que se pretende, e acho que a única pretensão decente para as esquerdas é a de garantir um processo civilizatório que garanta a preservação da cultura local. E não há processo civilizatório onde há genocídio; em verdade, uma coisa é o contrário da outra.

A Dança

15/02/11

Tempo, tempo, 

Tanta água no meu olho 

E o choro resiste ao vento 

 

Tempo, tempo 

Tanta aridez no sobrolho 

Ofende meu pensamento 

 

Tempo, tempo 

Prostrado no assoalho 

Com saudade do relento 

 

Tempo, tempo 

A memória em frangalhos 

É ódio jogado a tento 

Crítica dos críticos

7/02/11

De todos os críticos de cinema – poder-se-ia dizer “de todos os críticos de arte em geral” –, 99% não entendem patavina de arte. Eles podem ser cinéfilos, podem saber, de bate-pronto, que atores estiveram em qualquer produção obscura de 1952. Mas costuma faltar-lhes base artística ou filosófica para analisar, e mesmo apreciar, determinados filmes, que foram concebidos muitas vezes por cineastas com maior capacidade do que a deles.

Sofia Coppola, a filha do genial Francis Ford, é uma mulher que cansou de apanhar da crítica. Quando tentou ser atriz em O Poderoso Chefão 3, ela bem que mereceu a surra – sua atuação é pior do que amadora, é infantil, embora o filme, no todo, seja bom. Depois, quando seguiu a carreira de cineasta, chegou a ser elogiada pelo primeiro filme, As Virgens Suicidas, e, depois, o seu relacionamento com a crítica foi ladeira abaixo, apesar de Sofia nunca mais ter sido tão enxovalhada quanto quando atuou.

Foi preciso a intervenção de Jean Baudrillard, o polêmico filósofo, para que críticos lançassem a Encontros e Desencontros a atenção sobre a complexidade que o filme de fato exibe. É, talvez, a mais completa obra sobre a pós-modernidade, ainda que não se acredite nela – ou seja, ainda que entendamos que o momento que vivemos não passa de um desdobramento da modernidade.

A verdade é que, concorde-se ou não com a premissa básica de que estamos numa condição diversa daquela que desencadeou o Iluminismo e a Revolução Industrial, a verdade é que foram os pós-modernistas que lançaram a única novidade sobre as ciências humanas nos últimos 40 ou 50 anos. E Encontros e Desencontros, ao jogar luz sobre um homem que se sabe perdido e nunca encontrável naquela que é a cidade pós-moderna por excelência (Tóquio), é a mais bem acabada obra sobre o tema.

Eu tinha dúvidas de que Sofia Coppola conhecesse essa riqueza em seu filme. Tinha dúvidas, mesmo, de que ela soubesse o quanto as tantas leituras possíveis de sua obra, que sempre pode ser analisada em diferentes níveis, refletem a obra de seu pai. Cheguei a imaginar que o velho Francis é que tivesse dirigido e acompanhado a edição dos filmes da filha..

As dúvidas acabaram no sábado, quando assisti a Um Lugar Qualquer, quarto longa-metragem dirigido por Sofia. Ela ainda é uma garota aprendendo a dirigir, isto é óbvio. Numa das primeiras cenas, quando o personagem de Stephen Dorff está sentado em seu quarto de hotel, fazendo nada, você vê, olhando para o teto da imagem, o microfone direcional, que a câmera deixou vazar. Um erro, de novo, quase amador.
Dorff passa o filme inteiro literalmente não fazendo nada. Ele representa um ator bem parecido consigo mesmo: um modelo, que faz sucesso por causa do rostinho bonito (está bem, é Dorff, dá um desconto), que não sabe representar e não tem objetivos na vida. É separado e, de vez em quando acompanha as atividades da filha no piloto-automático. Às vezes, recebe mensagens ofensivas no celular – e, no final do filme, dá para perceber que o celular é a maneira de ele dialogar com a própria consciência. É um homem perdido e que, à diferença dos tempos da Modernidade, já tem certeza de que nunca vai encontrar o rumo. O filme é, assim, quase um remake de Encontros e Desencontros.

Há um momento em que Sofia parece dizer a seus críticos: “olha, ao contrário do que vocês dizem, eu sei o que estou falando e sei o que meus filmes significam”. Dorff está proferindo uma entrevista coletiva e, em meio a perguntas sobre como faz para manter o corpo malhado e sobre seus casos com atrizes, alguém o questiona sobre… Pós-modernidade. Ele, claro, não sabe responder.

A diretora mostra, assim, que domina muito mais o metiér do cinema do que os que têm por responsabilidade justamente analisar suas obras. Ela é uma crítica de críticos, uma que, indubitavelmente, entende de cinema. Não talha seus filmes para o sucesso, ao contrário de gente incompreensivelmente incensada, como James Cameron. Mas também é uma artista que se preocupa com seu público. Quanto aos críticos, eles deveriam estudar um pouco mais antes de sair por aí falando sobre o que não sabem.

Saia de casa

24/01/11

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Leio no blogue do Milton Ribeiro um interessante artigo sobre jornalismo, na verdade publicado numa página que costuma falar sobre o assunto. Começa com esse parágrafo: 

A esquerda tem os melhores escritores, os maiores artistas, os mais renomados cientistas sociais, os mais influentes historiadores, enfim, produz os mais importantes bens culturais de nosso tempo, mas não tem um grande jornal gerador de notícias, um daqueles que paute a mídia. Fui muito rápido? Então vamos por partes. 

Depois disso, o artigo ainda melhora. Não há grandes citações, não é um texto acadêmico. Ribeiro só comenta o que vê. Porque é fácil. 

Volto de férias e percebo que a minha grande dificuldade é encarar justamente essa imprensa. 

Eu estava em Paraty. Viajei no domingo, 16 de janeiro. Mais de uma pessoa me sugeriu evitar a viagem, só faltaram implorar. A imprensa mostrava as águas desabando em todo o país, levando casas e vidas com ela. Péssimo momento para viajar, certo? Mas, naquele domingo, me bateu uma forma diferente de ansiedade: eu estava sufocado pelo cinza da cidade, pelos personagens à minha volta, e então parti meio desesperado, ignorando os conselhos e o céu ameaçadoramente plúmbeo. 

Choveu um pouco durante a viagem. Fora isso, não tivemos problemas. A estrada estava linda, havia pouco tráfego, chegamos sem problemas. Paraty está firme e forte. Paramos numa pousada cujos donos pareciam estranhamente aliviados quando nos viram. Só mais tarde eu entenderia por quê. 

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E caímos no mar. Vimos peixes lindos, pegamos um ótimo sol, descansamos em praias de areias limpas com águas cristalinas. Conheci o Saco do Mamanguá (sem piadinhas, por favor), o único fiorde brasileiro, um lugar a que só se chega de barco, cujas águas maravilhosas não parecem ter um pingo de poluição. Comemos lula à dorê, badejo e iscas de peixe. À tarde, quando chovia – sempre suavemente –, líamos nossos livros: nada pesado (afinal, são férias), só Agatha Christie e David Gilmour. Depois íamos procurar algum dos famosos restaurantes de Paraty, cuja fama gastronômica é um tanto superestimada.  No quarto dia da viagem, calhou-me ver o giro de manchetes do Jornal da Record e depois o giro do Jornal Nacional. Só havia tragédias. Pessoas morrendo em todo canto. Quando não falavam na tragédia da Serra Fluminense, falavam de assassinatos, crimes do colarinho branco, pessoas em perigo. Tive um deja-vu daquela sensação de sufoco que me tinha impelido para longe da cidade. 

No mesmo dia, uma das recepcionistas da pousada explicou o alívio com que recebiam cada novo hóspede. No ano passado, com as notícias de desabamentos em Angra e Ilha Grande, o negócio deles fez água. Quase ninguém visitou Paraty em 2010. As pousadas e os restaurantes da cidade temeram que os acontecimentos na região serrana do Rio provocassem o mesmo fracasso este ano. Não foi bem o caso, felizmente, mas o movimento ainda não estava tão bom quanto já foi poucos anos atrás.  Não foi à toa que ao deja-vu que me tomou após encarar as manchetes dos jornais da TV tenha se seguido uma sensação de irrealidade – e uma de revolta, depois dela. Os jornais não estão preocupados em retratar uma situação. Eles estão preocupados em frisar os dramas, e, nessa lida, o que produzem são peças de ficção. Sim, muita gente já morreu com as chuvas deste ano. Sim, foi uma tragédia. Mas não: o Brasil não é assim. 

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Se eu tivesse me deixado afetar pelo que os jornais têm divulgado, se eu tivesse ouvido os conselhos que me pediram para não ir a Paraty, eu teria perdido uma deliciosa semana de férias. As pessoas que me aconselharam, aliás, estavam profundamente impressionadas com o que viam na televisão. Muita gente tem desistido de sair de casa por medo. As ruas parecem extremamente inseguras: isso é o que concluímos toda vez que vemos jornais.  Será que essa é uma daquelas disfunções da Comunicação Social de que nos falavam Roger Merton e Paul Lazarsfeld – ou será que há cabeças maquiavélicas por trás dessa campanha dissimulada para que apenas fiquemos em casa, consumindo com medo do mundo lá fora? Tudo indica que a resposta certa é a número 1, que a fúria da imprensa por divulgar as notícias do mais forte conteúdo dramático tem, como efeito colateral, esse medo público que se converte em auto-encarceramento privado. Mas há pessoas inteligentes e nenhum pouco paranoicas que acham diferente. Convém ouvi-las. 

Eu, jornalista, vou dar então um conselho que é um clichê, mas que continua valendo: desliga essa porra de televisão e vai ler um livro! 

O Gauguin de Floripa

4/01/11

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Nasceu seis dias depois de mim. Conheci-o quando tínhamos, ambos, um ano. Era uma figura estranhamente popular: quando crianças, todos adorávamos brigar com ele. Quando adultos – a turma nunca se desfez, vindo até revitalizar-se mais tarde –, entendemos por quê: ele tinha esse gênio que nunca aceitava a liderança de outrem sem questionamento. Não era um maria-vai-com-as-outras.

Tínhamos muito em comum. Nossas mães são amigas demais uma da outra. Somos corintianos. Trabalhamos com jornalismo. Gostamos de cinema e de Sisters of Mercy. Ele fotografou meu casamento.

E tínhamos outra coisa em comum que só agora eu sei. Não aceitamos esse projeto de vida que o mundo nos apresenta: você brinca, estuda, cresce e trabalha feito um porco, tentando ser melhor do que os outros, enriquecendo e pisando em quem está abaixo. E um dia, velho e cansado, fica procurando na memória as coisas que realmente valeram a pena na vida que ficou para trás, e encontra poucas, pouquíssimas.

Assim sendo, fez curso técnico de mecânica, depois Engenharia Mecânica na FEI – coisa para poucos. Formou-se e foi trabalhar como… fotógrafo. Descobrindo que a vida corporativa no jornalismo em nada diferia da de outras áreas, pegou suas coisas e foi fazer-se bancário em Florianópolis.

Depois disso, não mais nos falamos. Soube por amigos comuns que, de certo modo, ele era feliz. Sua figura, de alguma maneira, já me lembrava Dylan Thomas, Pete Townshend, Rimbaud e Gauguin. Hoje, também me lembra James Dean, Álvares de Azevedo, Sid Vicious e o mito da eterna juventude. Ficar jovem para sempre, de um jeito ou de outro.

Régis Fernando Chedid, 1973-2010, ficou jovem e, com saudades, será lembrado pelos seus amigos assim.