Repórter Diário - Histórias pela metade e estórias mal contadas
   

OPINIÃO DO LEITOR
15/05/2009

Histórias pela metade e estórias mal contadas

* José Luiz Gomes do Amaral e Edmund Chada Baracat
Vende-se a ideia de que o diploma universitário seja o passaporte para um futuro melhor; que o acesso à universidade automaticamente implicaria na inclusão social.

De fato, a ascensão social e econômica se abre aos que logram a qualificação necessária para competir por oportunidades oferecidas pelo país em desenvolvimento.

Omite-se que diploma nem sempre implica em qualificação e oportunidades podem não ser suficientes, caso o desenvolvimento não atenda às expectativas. Alguns o fazem por atávica distração face obstáculos difíceis. É mais comum, todavia, que outros o façam intencionalmente, buscando defender interesses inconfessáveis.

Nem desenvolvimento nem ensino têm correspondido às aspirações. Haja vista a escassez de oportunidades. Acrescente-se que nossos diplomas, considerada a insuficiência do ensino brasileiro, longe estão de expressar qualificação.

A história brasileira, desde a segunda metade do século que vimos encerrar e sobretudo desde o início do milênio, revela os resultados da ausência de política educacional e da ação predatória de um contingente cada vez maior de empresários inescrupulosos a parasitar o cenário das universidades e da política.

Não são raras as comparações entre o Brasil e países desenvolvidos no campo da qualidade do ensino pré-universitário. Não resta a menor dúvida da imensidão do nosso despreparo para enfrentar o mundo globalizado.

O processo de degradação fez-se primeiro sentir na educação pré-universitária. O magistério sofreu profunda desvalorização e as escolas públicas perderam todo prestígio, transferido a algumas poucas instituições privadas, reservadas às elites.

A legislação permissiva e o uso indevido da autonomia universitária têm permitido a disseminação de todo o tipo de “faculdade”, o que na medicina nos fez ultrapassar marcas mundiais, inusitadas mesmo em países com populações muitas vezes maiores que a nossa.

Hoje, no Brasil de 190 milhões de habitantes, há registro no Ministério da Educação de 173 “faculdades” de medicina, número superado apenas pela Índia, com 272 escolas médicas para 1,132 bilhão de habitantes; superior à China, com 150 faculdades e 1,3 bilhão de habitantes.

Faltam às “escolas” médicas instituições assistenciais próprias, o que inviabiliza a integração do ensino com a prática clínica, reconhecida como essencial à formação. Quando muito, e muitas são as “faculdades” que nem isso dispõem, há “convênios” de “fachada” com hospitais públicos ou privados. Neles, os alunos são deixados a acompanhar profissionais desvinculados do corpo docente da “faculdade” de origem.

Educadores “mascates” especializaram-se em elaborar modelos pedagógicos anunciados como “inovadores”, vendendo-os por todo o País como se pudessem substituir a atenção direta ao doente, o médico-professor e o hospital. Aliás, em concertada ação, ouve-se acrimoniosa crítica aos modelos rotulados “hospitalocêntricos” e à “medicalização” da saúde, como se fosse melhor banir hospitais e médicos das faculdades (de medicina!).

Tomam assim espaço as teorias ditas “inovadoras”: criar escolas onde não há médicos, como se pudessem servir de “polos” para fixação desses profissionais. Como se ao abrir uma escola de pesca no deserto, lá viessem a se estabelecer pescadores. Como se fosse dispensável expor futuros médicos à atividade assistencial apropriada. Como se fosse possível antecipar o ensino à boa prática.

Derradeiro bastião de resistência, os programas de especialização, particularmente a Residência Médica, são deixados à inanição, carentes de recursos, estes drenados para os tais programas “inovadores”. Residentes são abandonados sem supervisão; à falta de orientação qualificada, entregam-se ao autoaprendizado, em práticas improvisadas, em ambiente impróprio ao ensino ou ao exercício da profissão médica.

As pálidas iniciativas de saneamento, mais propostas abstratas que ações concretas, ilustradas nas recentes publicações de avaliações pontuais e incompletas, talvez rompessem a escuridão que nos oprime; não fosse a cínica e indecorosa proposição recente de oito (!) novas “faculdades” de medicina.

Este é nosso horizonte.

Não vivêssemos a democracia, restar-nos-ia a resignação.

Não nos resignemos; é possível mudar.

Nesse contexto, reconstruir o ensino médico e com ele a dignidade da assistência médica exige de todos participação; em outras palavras: discussão, decisão e mobilização.

Mobilização dos que vivem neste País, onde dinheiro não é tudo, mas quase tudo e a todos compra; onde nem tudo é negócio, mas é visto e tratado como tal.

Educar nossos filhos contrariamente a tais cínicas premissas, não lhes inviabiliza jamais sobrevivência. Faz deles instrumentos transformadores desta sociedade ora tristemente permissiva.

José Luiz Gomes do Amaral é Presidente da Associação Médica Brasileira

Edmund Chada Baracat é Diretor Científico da Associação Médica Brasileira




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