Edição 1663 - ABC, Quinta-feira, 02 de setembro de 2010
REPÓRTER ECONÔMICO
24/05/2008
Schincariol adota lacre em lata e acirra polêmica
A disputa em torno do uso de lacres de alumínio nas latas de cerveja ganha força com o anúncio de que o Grupo Schincariol vai utilizar o recurso em toda a sua linha de produção. As latas seladas em todas as marcas da empresa começam a chegar ao mercado nas próximas semanas.
Até aqui, a oferta praticamente se restringia aos rótulos Itaipava e Crystal, da Cervejaria Petrópolis, que, ao lançar o recurso fez disso um argumento de marketing. O lacre foi criado pela cervejaria de Walter Faria e ajudou a empresa a atingir 8,6% de participação de mercado.
O argumento de marketing da Petrópolis se viu enfraquecido, porém, com a entrada de uma campanha publicitária - assinada pelo Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja e Associação Brasileira da Indústria de Refrigerantes (Abir) - contestando o benefício proporcionado pelo lacre.
Por ordem judicial, a campanha de alerta à população, que alerta para o fato de o lacre de alumínio não ser garantia de higiene e recomendar que o consumidor limpe a lata antes de beber, está fora do ar desde o começo do ano. Aguarda julgamento do mérito. "Os juízes estão avaliando o conteúdo das pesquisas apresentadas nas defesas", informa Marco Mesquita, superintendente do Sindicerv.
Há pesquisas para todos os gostos. Os advogados da Petrópolis, que entraram com o recurso na Justiça solicitando a retirada da peça de propaganda e ganharam a liminar favorável, se apóia em um estudo do laboratório de Biologia da Universidade de São Paulo (USP) que aponta vantagens de limpeza no uso do lacre.
Já o Sindicerv e a Abir recorreram a estudos elaborados pelo Centro de Tecnologia da Embalagem (Cetea), uma entidade sem fins lucrativos e mantida por empresas privadas, que questiona a eficiência do lacre para uso em determinadas situações.
Um dos estudos foi feito a pedido da gigante do setor, a Companhia de Bebidas AmBev, que é contrária ao uso do selo. Os executivos da empresa não encontram vantagens para o consumidor e para a empresa, apontam a desvantagem do aumento de custos na linha de produção.
Para usar o lacre de alumínio, as cervejarias têm de comprar máquinas seladoras, que têm um ritmo de produção inferior ao das engarrafadoras. Enquanto as primeiras selam entre 50 e 60 mil latas por hora, as outras engarrafam 140 mil latas.
Esse desencontro é um entrave, particularmente, para a líder do setor, que detém 67% de participação de mercado e tem de adquirir mais máquinas que as concorrentes.
O diretor de marketing da Schincariol, Marcel Sacco, não se assusta com a celeuma. "Resolvemos encampar a proposta porque o consumidor aprova o lacre e isso estimulou as vendas de quem já aderiu."
A respeito dos estudos em discussão na Justiça, Sacco diz que foram devidamente avaliados pela Schincariol. No último deles, realizado pelo Cetea em 2007 a pedido da AmBev, a análise é de uma situação muito específica.
"O laudo foi realizado após duas latas, uma com lacre e outra sem, terem sido mergulhadas em água suja e depois expostas ao calor do sol por mais de quatro horas", explica ele. "Num cenário desses, é lógico que a lata com o selo está mais sujeita a formação de ambiente propício à proliferação de bactérias. Mas trata-se de uma situação hipotética."
Independentemente do desfecho para a campanha de esclarecimento à população - se será liberada pela Justiça para voltar a ser veiculada -, a Schincariol vai esquentar a briga ao se posicionar ao lado da Petrópolis. Algumas cervejarias pequenas, como a Colônia, do Paraná, também aderiram ao lacre.
Outros capítulos devem ocorrer nos próximos meses. Como informa o Sindicerv, que monitora o tema, existem mais de 50 projetos de lei nas Assembléias Legislativas de vários Estados, propondo a obrigatoriedade do uso do selo. (AE)